quinta-feira, outubro 16, 2008

O Eco do Ôco

The Red Tower in Halle. Kirchner, 1915


Quando os pensamenos servos
Se vão,
Ficam os pensamentos do que
Ouvi
Ou vi:
.
Ecoa, ecoa, ecoa.
.
Côo com minha peneira
O coro das vogais do vazio --
.
Sobra mesmo a pena,
Parte de mim,
Parte dos que partem
Sem notar o silêncio
Das suas vozes.

A Cura

Primavera. Heckel, 1918.


Na cadência dos dias,
Obscura,
Clarividência vislumbra
A cura.

Não há fogo que suma na
Penumbra,
Nem sombra que vagalume
Destrua.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Da Espantosa Realidade Das Coisas

Quanto mais fundo meu olhar ao mundo,
Mais absurdo ele me parece.
Estariam, então, meus olhos turvos,
Ou é a Loucura quem esclarece?
-
The Three Sphinxes of Bikini. Dalí, 1947.

segunda-feira, julho 07, 2008

Firmamento de Cimento

Nova York. Albert Gleizes, 1916



Tudo que vêem:
Esquinas de acasos,
avenidas a-vidas,
ávidas quinas no ocaso,
paredes de casca fina.

Firmamento de cimento.

Há vista sem os olhos,
Avista além da pista:
Se tudo é concreto,
Há Perto
Partos,
Peitos,
Pulsos,
Espelhos,
Corações que Pulsam.

sábado, junho 21, 2008

Vento, Careta e Felicidade


(São em momentos como esses, quando acordo subitamente de sono leve, que corro à caneta e papel e fotografo imagens longínquas ainda vivas dentro de mim. Naquelas sentadas abaixo da árvore do clube após as aulas de natação, quando achava que nada sabia da vida, estava guardando simples sabedorias a serem cegadas pela futura sucessão de dias turbulentos).

Às vezes, o vento batia forte no meu rosto de repente, meio gelado em meio a tardes quentes, e minha primeira reação era contorcer os músculos faciais em reprovação. Muito mais que um impulso, uma careta era formada por minha cara – retas sobrancelhas pontiagudas acostumadas aos arcos dos sorrisos.

A segunda reação era rapidamente retornar à expressão contente. Meu maior temor era de que o vento passasse e a careta para sempre ficasse, como tantas outras crianças também temiam. Muito mais que impulsos ou expressões faciais forçadas, no final e fundo, estava fazendo sem saber um pacto comigo, uma metonímia de jura à felicidade quando eventuais desconfortos se fizessem presentes.

Terna superstição. O que parecia besteira de criança ou preocupação fútil, foi idéia que se perdeu entre outros tantos temores, tensões, torturas duras do dia-a-dia, talvez concretas, talvez irreais.

Mas afinal, besteira é não optar em sorrir quando os ventos frios da vida sopram – eles podem até parecerem gélidos, mas o que são diante os dias quentes?


Vou tentar pensar mais nisso.



Créditos ao Bruno e à Ma Bertoldi, que me acordaram ontem à noite pelo celular!