segunda-feira, maio 23, 2011
sábado, abril 09, 2011
A Mancha de Café

Bridget Riley.
18 horas após o nascimento do dia, alguns minutos após a morte do sol, 3º ou 4º café das 50 pessoas na sala. As 50 telas de computador ligadas, cheias de células, linhas e dados que ao primeiro olhar são todos iguais, ao segundo são levemente diferentes, ao quinto estruturam o mundo que nos rodeia e fazem todo o sentido para aqueles que não sentem – pensam e agem.
Uma pessoa levanta. Uma pessoa caminha. Até a única porta. Um único grunhido. O copo de café encosta na porta. O rosto também.
1-2-3. Dos 50, talvez 3 tenham virado a cabeça e olhado para o que aconteceu. 10 nem notaram o que se passou. Os demais 37 olharam de canto de olho, se perguntando o que era aquele grunhido, mas tudo isso no segundo processador do cérebro, aquele pensamento que anda por debaixo do pano, quase subconsciente, mas que está ali, enquanto o primeiro está focando no que realmente importa. Os dados, as linhas, as células – da planilha. Seria ele um deficiente mental que disparou sons ininteligíveis na sala, enquanto tentava abrir a porta?
4-5-6. O preço do minério de ferro subiu 5% na China hoje, o frete caiu 10%, mais 2% de oscilação no COGS e o EBITDA diminuirá o suficiente para destruir valor ao acionista, e então lá vem 1 downgrade, 2 relatórios até às 23h e 150 calls amanhã pela manhã.
Novo grunhido. Dessa vez, animalesco. Nada humano. Pescoço retorcido. Bochecha espremida na porta. Coluna em ‘z’. Nada é leve. Harmônico. Sustentável.
7-8. O copo espremido na mão, contra a porta-parede. O que veio primeiro, o que veio em seguida. O café escorrendo pela porta-parede-prensa. Atingiu o carpete. O corpo se retorcendo em espasmo. Se angulando em formas pontiagudas. Como clip chinês feito de metal brasileiro. O que foi mais rápido. O borrão marrom de café que se espalhou pelo carpete. Ou o corpo que bateu o chão. No chão, começou a se debater.
8. Os 37 olham fixamente para o homem. 17 se levantam. Os demais 20 cobrem os rostos com as mãos, ou as põem na testa, ou somente arregalam os olhos. Dos 13 que mantiveram os olhos nas células e linhas e planilhas, 2 atendem a ligações telefônicas, 3 iniciam novas ligações e os outros 10 eu já não tinha mais como notar o que faziam.
Os de pé correm até o homem. Sacam celulares. Chamam o segurança. Apóiam o homem no braço. Tudo ao mesmo tempo. Cada um de uma vez. Qual o telefone da emergência. Tem socorro aqui no prédio. Alguém faz alguma coisa. Me dá uma caneta. A língua dele tá enrolando. Não sei se ele tá conseguindo respirar. Senhor segurança. Liga para o socorrista. E os bombeiros. E o SAMU. E pra deus.
9. Não chega o socorrista. 9. A sala está em pânico. 9. Há quem nem se constranja em continuar olhando para a tela. Há quem pense melhor. Cara de coitado. Os telefones batem. 9. 9. O socorrista não chega. 9. 9. 9.
10. Chega o socorrista. Não se põe caneta na boca. Com licença. Você está me ouvindo. Você toma medicações. Você sofre ataques epilépticos. Eu não seria capaz de responder a essas perguntas enquanto estou com meus olhos revirados e os membros inferiores retraídos. Os superiores batendo no chão como se eu estivesse imobilizado e sofrendo em dor. Suplicando pelo fim da luta de vale-tudo.
11-12-13. A respiração se normalizou. As perguntas foram vagamente respondidas. Os olhos se desviraram. A ambulância não chega. Os bombeiros não chegam. O quadro já está estável, ele vai ficar bem, sim, Sr., se o CAPEX for mantido, o target price vai cair.
9. Não chega o socorrista. 9. A sala está em pânico. 9. Há quem nem se constranja em continuar olhando para a tela. Há quem pense melhor. Cara de coitado. Os telefones batem. 9. 9. O socorrista não chega. 9. 9. 9.
10. Chega o socorrista. Não se põe caneta na boca. Com licença. Você está me ouvindo. Você toma medicações. Você sofre ataques epilépticos. Eu não seria capaz de responder a essas perguntas enquanto estou com meus olhos revirados e os membros inferiores retraídos. Os superiores batendo no chão como se eu estivesse imobilizado e sofrendo em dor. Suplicando pelo fim da luta de vale-tudo.
11-12-13. A respiração se normalizou. As perguntas foram vagamente respondidas. Os olhos se desviraram. A ambulância não chega. Os bombeiros não chegam. O quadro já está estável, ele vai ficar bem, sim, Sr., se o CAPEX for mantido, o target price vai cair.
Sobraram 5 em volta do homem. 4. 3. 2. 1. Sobrou o socorrista, os telefones tocando, os teclados teclando, o mercado subido e descendo.
Rush hour. Cadê a ambulância. É o trânsito. Cadê a maca para levar o homem até a portaria. Cadê as 50 pessoas que estão na sala. Cadê o meu sossego. Cadê meu processador cerebral modelo rolo-compressor – esmaga qualquer pensamento que não seja financeiro, estatístico, corporativo.
Chegaram os bombeiros. O homem, meio em pé, meio carregado, se foi. A porta fechou. A macha de café continuou lá, na porta. Gritando em epilepsia. Silêncio, teclados, 1 ou 2 toques de telefone, silêncio. O carpete fedendo a café. A sala que não cheira a nada, nem nunca cheirou. O servente limpa a porta. A mancha some da porta, mas continua na minha mente.
Mais um dia. Mais alguns cafés, horas corridas, e tudo isso que se pode imaginar. Já não havia mancha, choque, mãos na cabeça, na boca, nem nada. Silêncio corporativo. Paredes inodoras. Sorrisos mecânicos. A mancha na minha mente.
Vou até o corredor. Cruzo meu olhar com alguém – será que foi ele? Sim. Desço de andar, volto, vou até o banheiro. Sim, era ele sim. Foi você? Silêncio. Que teve a complicação de saúde. Sim. Está tudo bem? Sim, está.
É que eu fiquei meio preocupado com você, foi um baita susto.
Sim, está tudo bem.
Volto à sala, ao silêncio-inodoro, em silêncio. A mancha de café é um problema.
Meu.
Rush hour. Cadê a ambulância. É o trânsito. Cadê a maca para levar o homem até a portaria. Cadê as 50 pessoas que estão na sala. Cadê o meu sossego. Cadê meu processador cerebral modelo rolo-compressor – esmaga qualquer pensamento que não seja financeiro, estatístico, corporativo.
Chegaram os bombeiros. O homem, meio em pé, meio carregado, se foi. A porta fechou. A macha de café continuou lá, na porta. Gritando em epilepsia. Silêncio, teclados, 1 ou 2 toques de telefone, silêncio. O carpete fedendo a café. A sala que não cheira a nada, nem nunca cheirou. O servente limpa a porta. A mancha some da porta, mas continua na minha mente.
Mais um dia. Mais alguns cafés, horas corridas, e tudo isso que se pode imaginar. Já não havia mancha, choque, mãos na cabeça, na boca, nem nada. Silêncio corporativo. Paredes inodoras. Sorrisos mecânicos. A mancha na minha mente.
Vou até o corredor. Cruzo meu olhar com alguém – será que foi ele? Sim. Desço de andar, volto, vou até o banheiro. Sim, era ele sim. Foi você? Silêncio. Que teve a complicação de saúde. Sim. Está tudo bem? Sim, está.
É que eu fiquei meio preocupado com você, foi um baita susto.
Sim, está tudo bem.
Volto à sala, ao silêncio-inodoro, em silêncio. A mancha de café é um problema.
Meu.
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