sábado, abril 09, 2011

A Mancha de Café

Bridget Riley.

9º dia do 9º mês do décimo ano do século atual, décimo andar do talvez segundo prédio mais imponente da região onde se tomam as decisões financeiras de maior volume e importância da América Latina. No âmbito privado.

18 horas após o nascimento do dia, alguns minutos após a morte do sol, 3º ou 4º café das 50 pessoas na sala. As 50 telas de computador ligadas, cheias de células, linhas e dados que ao primeiro olhar são todos iguais, ao segundo são levemente diferentes, ao quinto estruturam o mundo que nos rodeia e fazem todo o sentido para aqueles que não sentem – pensam e agem.

Uma pessoa levanta. Uma pessoa caminha. Até a única porta. Um único grunhido. O copo de café encosta na porta. O rosto também.

1-2-3. Dos 50, talvez 3 tenham virado a cabeça e olhado para o que aconteceu. 10 nem notaram o que se passou. Os demais 37 olharam de canto de olho, se perguntando o que era aquele grunhido, mas tudo isso no segundo processador do cérebro, aquele pensamento que anda por debaixo do pano, quase subconsciente, mas que está
ali, enquanto o primeiro está focando no que realmente importa. Os dados, as linhas, as células – da planilha. Seria ele um deficiente mental que disparou sons ininteligíveis na sala, enquanto tentava abrir a porta?

4-5-6. O preço do minério de ferro subiu 5% na China hoje, o frete caiu 10%, mais 2% de oscilação no COGS e o EBITDA diminuirá o suficiente para destruir valor ao acionista, e então lá vem 1 downgrade, 2 relatórios até às 23h e 150 calls amanhã pela manhã.

Novo grunhido. Dessa vez, animalesco. Nada humano. Pescoço retorcido. Bochecha espremida na porta. Coluna em ‘z’. Nada é leve. Harmônico. Sustentável.

7-8. O copo espremido na mão, contra a porta-parede. O que veio primeiro, o que veio em seguida. O café escorrendo pela porta-parede-prensa. Atingiu o carpete. O corpo se retorcendo em espasmo. Se angulando em formas pontiagudas. Como clip chinês feito de metal brasileiro. O que foi mais rápido. O borrão marrom de café que se espalhou pelo carpete. Ou o corpo que bateu o chão. No chão, começou a se debater.

8. Os 37 olham fixamente para o homem. 17 se levantam. Os demais 20 cobrem os rostos com as mãos, ou as põem na testa, ou somente arregalam os olhos. Dos 13 que mantiveram os olhos nas células e linhas e planilhas, 2 atendem a ligações telefônicas, 3 iniciam novas ligações e os outros 10 eu já não tinha mais como notar o que faziam.

Os de pé correm até o homem. Sacam celulares. Chamam o segurança. Apóiam o homem no braço. Tudo ao mesmo tempo. Cada um de uma vez. Qual o telefone da emergência. Tem socorro aqui no prédio. Alguém faz alguma coisa. Me dá uma caneta. A língua dele tá enrolando. Não sei se ele tá conseguindo respirar. Senhor segurança. Liga para o socorrista. E os bombeiros. E o SAMU. E pra deus.

9. Não chega o socorrista. 9. A sala está em pânico. 9. Há quem nem se constranja em continuar olhando para a tela. Há quem pense melhor. Cara de coitado. Os telefones batem. 9. 9. O socorrista não chega. 9. 9. 9.

10. Chega o socorrista. Não se põe caneta na boca. Com licença. Você está me ouvindo. Você toma medicações. Você sofre ataques epilépticos. Eu não seria capaz de responder a essas perguntas enquanto estou com meus olhos revirados e os membros inferiores retraídos. Os superiores batendo no chão como se eu estivesse imobilizado e sofrendo em dor. Suplicando pelo fim da luta de vale-tudo.

11-12-13. A respiração se normalizou. As perguntas foram vagamente respondidas. Os olhos se desviraram. A ambulância não chega. Os bombeiros não chegam. O quadro já está estável, ele vai ficar bem, sim, Sr., se o CAPEX for mantido, o target price vai cair.

Sobraram 5 em volta do homem. 4. 3. 2. 1. Sobrou o socorrista, os telefones tocando, os teclados teclando, o mercado subido e descendo.

Rush hour. Cadê a ambulância. É o trânsito. Cadê a maca para levar o homem até a portaria. Cadê as 50 pessoas que estão na sala. Cadê o meu sossego. Cadê meu processador cerebral modelo rolo-compressor – esmaga qualquer pensamento que não seja financeiro, estatístico, corporativo.

Chegaram os bombeiros. O homem, meio em pé, meio carregado, se foi. A porta fechou. A macha de café continuou lá, na porta. Gritando em epilepsia. Silêncio, teclados, 1 ou 2 toques de telefone, silêncio. O carpete fedendo a café. A sala que não cheira a nada, nem nunca cheirou. O servente limpa a porta. A mancha some da porta, mas continua na minha mente.

Mais um dia. Mais alguns cafés, horas corridas, e tudo isso que se pode imaginar. Já não havia mancha, choque, mãos na cabeça, na boca, nem nada. Silêncio corporativo. Paredes inodoras. Sorrisos mecânicos. A mancha na minha mente.

Vou até o corredor. Cruzo meu olhar com alguém – será que foi ele? Sim. Desço de andar, volto, vou até o banheiro. Sim, era ele sim. Foi você? Silêncio. Que teve a complicação de saúde. Sim. Está tudo bem? Sim, está.

É que eu fiquei meio preocupado com você, foi um baita susto.

Sim, está tudo bem.

Volto à sala, ao silêncio-inodoro, em silêncio. A mancha de café é um problema.

Meu.

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